quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Davides, Golias, a APEL e Saramago

«Os editores, e seguramente os livreiros, estão preocupados com o futuro das livrarias, aliás é um movimento que tem surgido em todo o mundo, pois o papel da livraria é insubstituível».



Miguel Freitas da Costa, secretário-geral da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) no Congresso do Livro realizado nos dias 28 e 29 de Outubro de 2011 em Praia da Vitória, Açores



“A vida é uma luta de feras, a todas as horas em todos os lugares. É o «salve-se quem puder», e nada mais. O amor é o pregão dos fracos, o ódio é a arma dos fortes. Ódio aos rivais, aos concorrentes, aos candidatos ao mesmo bocado de pão ou de terra, ou ao mesmo poço de petróleo. O amor só serve para chacota ou para dar oportunidade aos fortes de se deliciarem com as fraquezas dos fracos. A existência dos fracos é vantajosa como recreio, serve de válvula de escape”.



José Saramago, Claraboia (págs. 390/1)



[destaque nosso]



Tal como no ramo das livrarias, também no das editoras há Davides e Golias...



JG



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Mulher-coragem





"E se me permitem, agora mesmo a finalizar e plagiando o Professor Carlos Fiolhais, direi, quando me perguntarem o que fiz pelo meu País e pela minha Terra, direi com muito orgulho, que divulguei livros e partilhei leituras. "



Isabel Castanheira (Livraria 107, Caldas da Rainha). Palavras ditas no I Congresso do Livro, realizado nos dias 28 e 29 de Outubro de 2011 em Praia da Vitória, Açores, aquando da entrega do Prémio Livreiro.



Ver texto todo no ENCONTRO LIVREIRO, lugar de encontro de livreiros & outros amantes...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O presente e o futuro das livrarias

Ver no ENCONTRO LIVREIRO A comunicação apresentada ao I Congresso do Livro, realizado nos dias 28 e 29 de Outubro de 2011 em Praia da Vitória, Açores , por Jaime Bulhosa, da livraria Pó dos Livros, de Lisboa.

Isabel Castanheira




Parabéns à Isabel Castanheira por lhe ser atribuído o Prémio Livreiro no Congresso do Livro que decorreu nos Açores no passado fim-de-semana.




Lamentavelmente estas coisas acontecem, muitas vezes, como que de uma forma "póstuma".



Julgo que a Isabel preferia não ter o prémio e ter conseguido manter aberta a Livraria 107, nas Caldas da Rainha... Muitas vezes, no entanto, há valores que falam mais alto que a coragem...


Parabéns mulher-coragem!




Sines, 31 de Outubro de 2011


Joaquim Gonçalves

MORTE ÀS LIVRARIAS, JÁ!

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MORTE ÀS LIVRARIAS! JÁ!
(notas soltas)



- Sabem que há professores que recomendam aos bibliotecários de escola que "comprem livros na FNAC e não nas livrarias"?



- Sabem que há professores que escrevem num papelinho onde os alunos devem ir comprar os livros?


- Sabem que há professores que dizem explicitamente para a escola comprar livros directamente às editoras "para os alunos não irem comprar às livrarias"?


- Sabem que há editoras que alimentam isto?


- Sabem que a generalidade dos livreiros não conhece os professores porque estes nuncam "metem o cú" numa livraria?


- Mas sabem que são esses "professores" que "educam" os nossos filhos, não sabem?


- Sabem que há editoras e grupos editoriais que nos roubam os clientes (escolas, bibliotecas) a 500 metros da livraria?


- Sabem que, para esses agentes económicos, as escolas e bibliotecas são clientes como as livrarias?


- Sabem que, em tempos, houve uma Lei do Preço Fixo do Livro que, embora não fosse revogada, foi covardemente lançada ao abandono e escondida pelas autoridades a quem pagamos ordenado para nos defender?


Esta vida de livreiro
Está a dar cabo de mim...
rastapartarastapartaastaparta


NOTA FINAL E IMPORTANTE:



Felizmente há professores inteligentes, e acredito que serão a maioria, que entendem que, quando dizemos que "há professores" não nos referimos à generalidade.



Sines, 27 de Outubro de 2011


Joaquim Gonçalves

Livreiro ressabiado





«As editoras têm apresentado o que vão dar a ler ao longo dos próximos meses e, em destaque, surge já 30 de Setembro, com “Comissão das Lágrimas”. O novo livro de Lobo Antunes parte de “um doloroso canto de uma mulher torturada”, diz o comunicado da editora Dom Quixote, que acrescenta que este é um “livro denso e sombrio sobre Angola depois da independência”.»



Este excerto foi pescado aqui http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=96&did=171731 de onde o retiramos com a devida vénia (acompanho o gesto à palavra) e serve de preâmbulo ao resto.



Apesar de, cada vez mais, ser difícil estar informado sobre o mundo da edição, vou lendo aqui e ali as notícias que são debitadas para jornais, revistas, blogues, sítios da Internet, no que gasto tempo que me seria precioso para abrir e fechar caixotes do imenso lixo que algumas distribuidoras insistem em querer colocar no espaço cada vez mais exíguo da livraria. Para mostrarem os seus “produtos”. Para os venderem.



Para a minha informação muito contaram, sempre, as visitas de vendedores, classe trabalhadora cuja terminologia, antes da extinção que se avizinha, mudou para “comerciais”. Traziam livros que eu manuseava, avaliava mesmo através do cheiro da experiência de vendas ao meu público cliente. Conversávamos sobre os livros. Chegámos mesmo a trocar livros que tínhamos lido e de que tínhamos gostado.



Com alguns vendedores conversava como conversamos com os nossos clientes. É óbvio que, tanto os vendedores como nós, trabalhamos para vender livros. Mas não só! E é neste “não só” que reside a diferença.



Há clientes que nos visitam, não raras vezes, apenas para conversarem connosco. Sobre isto ou aquilo mas, sobretudo, sobre livros, escritores e tudo o resto que se relaciona.



Foi assim que, através de uma cliente, depois de eu assegurar que a Editora da Autora tinha falido e ainda não se sabia quem iria publicar os novos títulos, soube da próxima saída do novo livro de Isabel Allende na Porto Editora. Tal foi anunciado, com pompa, circunstância e croquete, à Comunicação Social. Ora, os Órgãos de Comunicação Social fizeram e, pelos vistos, bem, o seu trabalho. De tal maneira que a notícia chegou primeiro à minha cliente do que a mim.



Imaginem que, um dia, o paciente chega à farmácia e dá lições ao farmacêutico sobre os medicamentos que vende, os laboratórios que os produzem e por aí fora! Por desnecessários, certamente deixariam de existir farmacêuticos! Será o que o futuro nos reserva? É que um livreiro, e falo sempre na qualidade de livreiro de fora dos grandes centros urbanos, um livreiro, dizia, não deixa de ser uma espécie de farmacêutico!



Quem não terá feito bem o seu trabalho terá sido a Porto Editora ao desprezar os seus “parceiros”. Digo eu!... Mas, se calhar, estou enganado. Eu, sozinho na livraria, a atender os (poucos) clientes e a abrir e fechar os (muitos) caixotes, conferir facturas e notas de crédito enganadas, contactar bibliotecas, escolas, autores… e os bancos!... Pouco sobra para a vida pessoal. E não me obriguem a ver televisão para saber que livros vão sair e onde! São as editoras que têm o dever de me informar. Mas acho que deixaram de querer isso. Porque deixaram de querer que haja livrarias.



O novo livro de Lobo Antunes existe, neste momento, às paletes nas grandes superfícies e não foi entregue às livrarias atempadamente. Daqui a um ano o cliente encontrará pelo menos um exemplar na livraria e nenhum nas tais grandes superfícies. Quem duvida?Penso que está na altura de os próprios autores abrirem os olhos. É que, daqui a um ano haverá possivelmente metade das livrarias. E daqui a dois, naturalmente, haverá tantas livrarias como lojas de discos existem hoje espalhadas pelo País. Quem me diz onde há uma para eu ir lá a correr comprar o novo do Sérgio Godinho?



Já me aconteceu ter de ir a um concorrente comprar um livro para servir um cliente. Porque esse livro foi traduzido e editado por um fornecedor meu mas vendido em exclusivo para esse meu concorrente. Que merda de lei de concorrência é esta?



E, desta vez, nem falo da defunta Lei do Preço Fixo do Livro! É que, se formos por aí, o papel não chega para crucificar – justamente – os impérios do consumo e quem lhes dá cobertura.



Se isto é ressabiamento, eu sou o primeiro dos ressabiados.



Notas: Felizmente, no campo das editoras, ainda há excepções à regra. Pequenas como nós!...A gravura foi roubada daqui http://cadeiraovoltaire.wordpress.com/



Sines, 12 de Outubro de 2011


Joaquim Gonçalves



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Os livros que se publicam, as listas dos mais vendidos, os prémios literários e aquilo que mais interessa

Há épocas do ano em que, apesar da profusão de novas edições que surgem diariamente nas livrarias, não me é muito fácil escolher um livro para ler. Possivelmente porque sou preguiçoso e estou sempre à espera da nata. Talvez seja por isso ou porque já não tenho paciência para o estilo de publicações com que o mercado editorial vai seduzindo não só leitores mas, acima de tudo, não leitores.

São títulos e personalidades que, cada vez mais, interessam a uma parte do sector editorial. Algumas das vezes, infelizmente, àquela parte que tem dinheiro para esbanjar na habituação, no vício, na publicidade e no marketing, para depois ir colher os frutos que quer. Frutos que já não custam tanto dinheiro a produzir. É uma opção de um sistema que valoriza apenas o material, a imagem, o parecer-se com. Daí, muitas das publicações que aprecem nas montras parecerem-se com livros mas serem apenas um produto. Com embalagens vistosas e publicidade em tudo o que é sítio. Não me admira, pois, que se vendam ao lado dos legumes e das mercearias.

Pelo contrário, há publicações que apenas se vendem nos estabelecimentos da especialidade. Como os medicamentos. São livros perigosos, que servem para curar doenças ou alimentar o espírito. Como os remédios deste tipo que só se vendem nas farmácias, são livros que apenas se encontram nas livrarias. Porque são perigosos mas, em geral, não são rentáveis.

Gostaria que António Damásio tivesse vida e saúde para ter tempo de estudar e publicar os motivos que levam a este estado mental. Poderia ser que conseguisse iluminar algumas cabeças pensantes. Pode ser que o seu último livro “O Livro da Consciência – A construção do cérebro consciente” possa já dar uma pequena ajuda. Até porque o livro, para o género, até se vende bem ocupando mesmo um bom lugar no top da livraria A das Artes.

Aqui, a nossa lista dos mais vendidos, desta vez, até tem coincidência com as listas dos grandes grupos livreiros. Mas as listas valem o que valem. Há livros dessas listas de grandes vendedores que não saem das prateleiras ou das mesas da livraria de província. Sejam eles publicitados ou mesmo premiados. Por exemplo, sendo um dos autores que até se vende bem por aqui, desde o anúncio do Prémio Nobel da Literatura de 2010, só um cliente nos procurou por livros de Mário Vargas Llosa. Há mistérios insondáveis dignos de um estudo sociológico.

E este é o prémio Nobel! Imaginem as dezenas de outros prémios que aparecem anunciados nas capas, prémios de que ninguém ouviu falar senão o Editor quando visitou a Feira de Frankfurt.

Felizmente há quem aposte no prémio da qualidade. Autores, Editores, livreiros e, felizmente, alguns leitores. Esse é o prémio que apenas com a leitura se afere. Somos nós, leitores, que o atribuímos. Ao ler, ao falar do livro, ao divulgá-lo. E isso é o que mais interessa.

=============== I N T E R L Ú D I O =====================

É com prazer que divulgo os livros mais vendidos na livraria A das Artes na época pós-férias de Verão. E com redobrado prazer dizer que nove dos doze mais vendidos são de autores de língua portuguesa. Sobram dois autores de língua castelhana e uma italiana.

Vejamos, então, a nossa dúzia mais vendida nos últimos tempos:

Em primeiro lugar o mais recente romance de João Tordo, O Bom Inverno, autor que ocupa ainda o segundo lugar com a história que fez passar-se em Santiago do Cacém, As Três Vidas; Livro, de José Luís Peixoto em terceiro; Segue-se o livro póstumo de António Feio, Aproveitem a Vida; Não podemos fugir ao quinto lugar de Sveva Casati Modignani com o seu Esplendor da Vida; Carlos Ruiz Záfon segue em sexto com Marina que, apesar de escrito antes de A Sombra do Vento apenas agora foi publicado em Portugal; Depois, enfim, depois vem aquele que considero o livro do ano O viajante do século de Andres Neuman; Voltamos aos portugueses com a Caderneta de Cromos de Nuno Markl; O livro da Consciência de António Damásio; tornamos a João Tordo com Hotel Memória, o seu terceiro romance; José Eduardo Agualusa já aparece na lista com Milagrário Pessoal, um ensaio sobre a língua portuguesa disfarçado de romance, como disse um crítico. Quanto a mim, mais uma excelente obra do autor angolano. Finalmente, o brasileiro Laurentino Gomes que, depois do grande êxito de 1808, publica agora 1822.

As listas, como disse, valem o que valem. Para mim, esta é mesmo muito valiosa.

Sines, 19 de Outubro de 2010
Joaquim Gonçalves