Há épocas do ano em que, apesar da profusão de novas edições que surgem diariamente nas livrarias, não me é muito fácil escolher um livro para ler. Possivelmente porque sou preguiçoso e estou sempre à espera da nata. Talvez seja por isso ou porque já não tenho paciência para o estilo de publicações com que o mercado editorial vai seduzindo não só leitores mas, acima de tudo, não leitores.
São títulos e personalidades que, cada vez mais, interessam a uma parte do sector editorial. Algumas das vezes, infelizmente, àquela parte que tem dinheiro para esbanjar na habituação, no vício, na publicidade e no marketing, para depois ir colher os frutos que quer. Frutos que já não custam tanto dinheiro a produzir. É uma opção de um sistema que valoriza apenas o material, a imagem, o parecer-se com. Daí, muitas das publicações que aprecem nas montras parecerem-se com livros mas serem apenas um produto. Com embalagens vistosas e publicidade em tudo o que é sítio. Não me admira, pois, que se vendam ao lado dos legumes e das mercearias.
Pelo contrário, há publicações que apenas se vendem nos estabelecimentos da especialidade. Como os medicamentos. São livros perigosos, que servem para curar doenças ou alimentar o espírito. Como os remédios deste tipo que só se vendem nas farmácias, são livros que apenas se encontram nas livrarias. Porque são perigosos mas, em geral, não são rentáveis.
Gostaria que António Damásio tivesse vida e saúde para ter tempo de estudar e publicar os motivos que levam a este estado mental. Poderia ser que conseguisse iluminar algumas cabeças pensantes. Pode ser que o seu último livro “O Livro da Consciência – A construção do cérebro consciente” possa já dar uma pequena ajuda. Até porque o livro, para o género, até se vende bem ocupando mesmo um bom lugar no top da livraria A das Artes.
Aqui, a nossa lista dos mais vendidos, desta vez, até tem coincidência com as listas dos grandes grupos livreiros. Mas as listas valem o que valem. Há livros dessas listas de grandes vendedores que não saem das prateleiras ou das mesas da livraria de província. Sejam eles publicitados ou mesmo premiados. Por exemplo, sendo um dos autores que até se vende bem por aqui, desde o anúncio do Prémio Nobel da Literatura de 2010, só um cliente nos procurou por livros de Mário Vargas Llosa. Há mistérios insondáveis dignos de um estudo sociológico.
E este é o prémio Nobel! Imaginem as dezenas de outros prémios que aparecem anunciados nas capas, prémios de que ninguém ouviu falar senão o Editor quando visitou a Feira de Frankfurt.
Felizmente há quem aposte no prémio da qualidade. Autores, Editores, livreiros e, felizmente, alguns leitores. Esse é o prémio que apenas com a leitura se afere. Somos nós, leitores, que o atribuímos. Ao ler, ao falar do livro, ao divulgá-lo. E isso é o que mais interessa.
=============== I N T E R L Ú D I O =====================
É com prazer que divulgo os livros mais vendidos na livraria A das Artes na época pós-férias de Verão. E com redobrado prazer dizer que nove dos doze mais vendidos são de autores de língua portuguesa. Sobram dois autores de língua castelhana e uma italiana.
Vejamos, então, a nossa dúzia mais vendida nos últimos tempos:
Em primeiro lugar o mais recente romance de João Tordo, O Bom Inverno, autor que ocupa ainda o segundo lugar com a história que fez passar-se em Santiago do Cacém, As Três Vidas; Livro, de José Luís Peixoto em terceiro; Segue-se o livro póstumo de António Feio, Aproveitem a Vida; Não podemos fugir ao quinto lugar de Sveva Casati Modignani com o seu Esplendor da Vida; Carlos Ruiz Záfon segue em sexto com Marina que, apesar de escrito antes de A Sombra do Vento apenas agora foi publicado em Portugal; Depois, enfim, depois vem aquele que considero o livro do ano O viajante do século de Andres Neuman; Voltamos aos portugueses com a Caderneta de Cromos de Nuno Markl; O livro da Consciência de António Damásio; tornamos a João Tordo com Hotel Memória, o seu terceiro romance; José Eduardo Agualusa já aparece na lista com Milagrário Pessoal, um ensaio sobre a língua portuguesa disfarçado de romance, como disse um crítico. Quanto a mim, mais uma excelente obra do autor angolano. Finalmente, o brasileiro Laurentino Gomes que, depois do grande êxito de 1808, publica agora 1822.
As listas, como disse, valem o que valem. Para mim, esta é mesmo muito valiosa.
Sines, 19 de Outubro de 2010
Joaquim Gonçalves
terça-feira, 1 de novembro de 2011
De se tirar o chapéu
Sines, nesta época do ano, é ponto de passagem de alguns e de destino de outros. O mar, praia, sol e outras coisas que os forasteiros cá descobrem.
A livraria fica perto do parque de campismo que, por razões que desconheço, este verão apenas esteve aberto durante o Festival Músicas do Mundo. De qualquer forma, sendo uma zona comercial, as pessoas passeiam-se, principalmente durante a manhã, com carrinhos de bebé, sem carrinhos de bebé, em pequenos grupos, aos pares, solitários, mãos atrás das costas, desviando-se dos montes que os cães deixam nos passeios e das paredes mijadas até à altura do alçar da perna, vendo as montras ou, mesmo, não vendo nada.
É de manhã também que, de vez em quando, vou até porta e espreito o mar, à esquerda, lá ao fundo, um ou outro navio a chegar conduzido pelos potentes rebocadores; imaginando os corpos ao sol estendidos na areia.
Cumprimento com um aceno pessoas que me cumprimentam de dentro de carros que passam. Normalmente não consigo vislumbrar quem lá vai mas a educação nunca fez mal a ninguém e eu até gosto de ser cumprimentado. Bons dias de um ou outro idoso que só conheço do seu passeio matinal, saído do lar ao virar da esquina e para onde regressa depois da volta ao quarteirão. Também retribuo o aceno de alguns pescadores que, do Bairro Marítimo, ali à direita, balde de plástico pendurado no braço, se dirigem para o porto de pesca ou de lá regressam depois de várias horas no mar.
O interior da livraria está fresco. Para quem gosta de livros, as luzes apagadas ajudam ao ambiente propício para alguns momentos de descontracção. Há quem entre, dê a voltinha e saia. Há quem entre e fique mais um bocado, vendo as novidades nas mesas ou procurando surpresas nas prateleiras. Por vezes sou eu que tenho surpresas. Por vezes aparecem pessoas que gostam de falar de livros. Por vezes inicia-se um namoro sem consequências mas que é bom enquanto dura. Falamos de títulos e de autores, de histórias, contamo-las e ouvimo-las. Não tão raramente quanto isso, há quem pergunte como é vender livros em Sines. E dá? Vai dando, com dificuldades, os encargos são muito grandes… o costume. Mas estamos cá!
Há pouco estava eu à porta a olhar para nada – apenas a descansar do teclado e das facturas. Da esquerda vêm surgindo pessoas. Um casal, calções e chinelos; uma senhora com saco da loja de roupas; três raparigas, uma delas com filmes de vídeo numa mão e o telemóvel na outra, digitando freneticamente. Um pouco atrás um homem alto, mais de setenta anos, roupa desportiva mas clássica, clara, óculos escuros acastanhados, boné bege na cabeça. Traje de passeio e passo de passeio. Detém-se na montra da livraria, observa os livros expostos. Para não incomodar afasto-me um pouco da porta. O senhor também se afasta da montra e dirige-se à entrada. Observo-o pelo canto do olho. Entra. Fico-lhe agradecido. Não só pelo facto de entrar. Entrar muita gente entra e é claro que é gratificante que isso aconteça.
Mas, é que, no momento de entrar na livraria, este senhor tirou o chapéu!
Sines, 6 de Agosto de 2010
Joaquim Gonçalves
A livraria fica perto do parque de campismo que, por razões que desconheço, este verão apenas esteve aberto durante o Festival Músicas do Mundo. De qualquer forma, sendo uma zona comercial, as pessoas passeiam-se, principalmente durante a manhã, com carrinhos de bebé, sem carrinhos de bebé, em pequenos grupos, aos pares, solitários, mãos atrás das costas, desviando-se dos montes que os cães deixam nos passeios e das paredes mijadas até à altura do alçar da perna, vendo as montras ou, mesmo, não vendo nada.
É de manhã também que, de vez em quando, vou até porta e espreito o mar, à esquerda, lá ao fundo, um ou outro navio a chegar conduzido pelos potentes rebocadores; imaginando os corpos ao sol estendidos na areia.
Cumprimento com um aceno pessoas que me cumprimentam de dentro de carros que passam. Normalmente não consigo vislumbrar quem lá vai mas a educação nunca fez mal a ninguém e eu até gosto de ser cumprimentado. Bons dias de um ou outro idoso que só conheço do seu passeio matinal, saído do lar ao virar da esquina e para onde regressa depois da volta ao quarteirão. Também retribuo o aceno de alguns pescadores que, do Bairro Marítimo, ali à direita, balde de plástico pendurado no braço, se dirigem para o porto de pesca ou de lá regressam depois de várias horas no mar.
O interior da livraria está fresco. Para quem gosta de livros, as luzes apagadas ajudam ao ambiente propício para alguns momentos de descontracção. Há quem entre, dê a voltinha e saia. Há quem entre e fique mais um bocado, vendo as novidades nas mesas ou procurando surpresas nas prateleiras. Por vezes sou eu que tenho surpresas. Por vezes aparecem pessoas que gostam de falar de livros. Por vezes inicia-se um namoro sem consequências mas que é bom enquanto dura. Falamos de títulos e de autores, de histórias, contamo-las e ouvimo-las. Não tão raramente quanto isso, há quem pergunte como é vender livros em Sines. E dá? Vai dando, com dificuldades, os encargos são muito grandes… o costume. Mas estamos cá!
Há pouco estava eu à porta a olhar para nada – apenas a descansar do teclado e das facturas. Da esquerda vêm surgindo pessoas. Um casal, calções e chinelos; uma senhora com saco da loja de roupas; três raparigas, uma delas com filmes de vídeo numa mão e o telemóvel na outra, digitando freneticamente. Um pouco atrás um homem alto, mais de setenta anos, roupa desportiva mas clássica, clara, óculos escuros acastanhados, boné bege na cabeça. Traje de passeio e passo de passeio. Detém-se na montra da livraria, observa os livros expostos. Para não incomodar afasto-me um pouco da porta. O senhor também se afasta da montra e dirige-se à entrada. Observo-o pelo canto do olho. Entra. Fico-lhe agradecido. Não só pelo facto de entrar. Entrar muita gente entra e é claro que é gratificante que isso aconteça.
Mas, é que, no momento de entrar na livraria, este senhor tirou o chapéu!
Sines, 6 de Agosto de 2010
Joaquim Gonçalves
Cada um balança à sua maneira
Segundo o "Diário de Notícias":
A 80.ª Feira do Livro de Lisboa terminou [...]. Que balanço faz da edição deste ano?
«- Foi o ano com maior participação de sempre, em termos de editores, cerca de 170. O fluxo do público e o volume de vendas também aumentaram significativamente. Ainda não temos números definitivos mas o balanço é bastante positivo.» Quem responde é Eduardo Boavida, director da Feira do Livro de Lisboa.
Segundo o livreiro de província, com a mania das independências, ao jornal... ao jornal... (Ops! Não tem voz na Comunicação Social!...):
«- Enquanto decorreu a Feira do Livro de Lisboa os caixotes com novidades aumentaram; os clientes desapareceram, salvo uma ou outra prendinha de última hora, logo, as vendas diminuiram na proporção inversa ao pedido de pagamento de facturas. Aliás, este foi o pior ano de sempre nesse período. Vamos repensar a continuidade da actividade já que, acabada a Feira do Livro de Lisboa, as editoras recomeçam a Feira do Livro de Portugal que, durando TODO O ANO, percorre o País em escolas, bibliotecas, praças e pracetas, estações de comboio, de correios, de serviço... Só faltam os sanitários públicos. É a Feira do Livro da Pouca-vergonha, sem lei nem roque.
Há raras excepções mas começa a ser regra o comércio directo das editoras com o público que deveria alimentar a existência de livrarias.Pedem (mais) criatividade às livrarias. Qual quê!!! Isso é que é criatividade!»Comentário cá meu: O mal do livreiro independente, ainda por cima o de província, é ser provinciano!... Perde tempo com a literatura em vez de estudar! Sim, estudar - a maneira de lixar os outros!...
Sines, 25 de Maio de 2010
Joaquim Gonçalves
A 80.ª Feira do Livro de Lisboa terminou [...]. Que balanço faz da edição deste ano?
«- Foi o ano com maior participação de sempre, em termos de editores, cerca de 170. O fluxo do público e o volume de vendas também aumentaram significativamente. Ainda não temos números definitivos mas o balanço é bastante positivo.» Quem responde é Eduardo Boavida, director da Feira do Livro de Lisboa.
Segundo o livreiro de província, com a mania das independências, ao jornal... ao jornal... (Ops! Não tem voz na Comunicação Social!...):
«- Enquanto decorreu a Feira do Livro de Lisboa os caixotes com novidades aumentaram; os clientes desapareceram, salvo uma ou outra prendinha de última hora, logo, as vendas diminuiram na proporção inversa ao pedido de pagamento de facturas. Aliás, este foi o pior ano de sempre nesse período. Vamos repensar a continuidade da actividade já que, acabada a Feira do Livro de Lisboa, as editoras recomeçam a Feira do Livro de Portugal que, durando TODO O ANO, percorre o País em escolas, bibliotecas, praças e pracetas, estações de comboio, de correios, de serviço... Só faltam os sanitários públicos. É a Feira do Livro da Pouca-vergonha, sem lei nem roque.
Há raras excepções mas começa a ser regra o comércio directo das editoras com o público que deveria alimentar a existência de livrarias.Pedem (mais) criatividade às livrarias. Qual quê!!! Isso é que é criatividade!»Comentário cá meu: O mal do livreiro independente, ainda por cima o de província, é ser provinciano!... Perde tempo com a literatura em vez de estudar! Sim, estudar - a maneira de lixar os outros!...
Sines, 25 de Maio de 2010
Joaquim Gonçalves
Livreiro encalorado
Hoje está muito calor. Os vidros da montra e das portas estão cobertos de mosquitos irritantes. No muro ali em frente, do outro lado da rua, enfileiram-se milhares de minúsculas formigas.O livreiro fecha as portas para não ser comido pelos mosquitos, decomposto pelas formigas, derretido pelo calor. Encosta as portas mas deixa a tabuleta “ABERTO”. Olha para o computador e sente saudades do livro que deixou na página 384. Ali mesmo, onde Sophie e Hans se preparam para traduzir Bocage e Leopardi. “O Viajanet do Século”. Que deleite!
Passam poucos minutos das três da tarde e já espreitou a Internet: As últimas da ópera bufa dos impostos; da Feira do Livro de Lisboa que, este ano, teima em não acabar; Da Feira do Livro do Porto que, este ano, arrecadou para si toda a polémica; espreitou, muito de mansinho, para ela não dar por isso, a conta no banco… Melhor dito: a “desconta”(!) do banco!
O livreiro não sai de trás do balcão e olha para “O último leitor” e “Santa Maria do Circo” que, numa das mesas em frente, o chamam. Lá perto, “O físico prodigioso” não consegue mezinhas para esticar o tempo. Tempo para ler o que é preciso. O que apetece.
Mais uma mirada à Internet, outra vez um saltinho aos blogues literários e salta a palavra “bibliodiversidade”. Sim, é o que oferecem as livrarias independentes. Mas independentes de quê? De quem? Se o livreiro fosse independente queria ser livro! Isso sim! Diria o que quisesse. Faria o que lhe desse na real gana… até que o queimassem… Ou guilhotinassem!
Mas o livreiro não é livro. É, apenas, livreiro. Aliás, talvez nem isso! Basta ir à Repartição de Finanças e procurar pela lista de profissões. Não há.
Na Argentina, chamou-nos para isso a atenção o blogue da revista Ler, foi fundada a primeira escola de livreiros do País. Na apresentação dizia o respectivo Secretário Estado da Cultura, Jorge Coscia: «La palabra "librero" adquirió un gran prestigio en la cultura argentina. Aparece en el paradigma primero como un hombre que ama y conoce los libros y está grabada a fuego en esta hermosa tradición de la actividad editorial».
Atrás do balcão o livreiro - português, de província, ainda por cima - dá uma espreitadela para lá da montra, para lá dos mosquitos – alguém mira os livros expostos enquanto dura um cigarro. O cigarro acaba-se e a beata vai para o chão. A senhora - é uma senhora - apaga-o com a ponta bicuda do sapato não vá incendiar as pedras da calçada. O livreiro baixa os braços do teclado e prepara-se para ir buscar a vassoura. Livreiro todo-o-terreno, como dizia a colega Lena ao queixar-se das limpezas, dos caixotes, das facturas, das prateleiras, de tanta coisa e da falta de tudo.
O calor não dá tréguas. Nada dá tréguas. Ninguém dá tréguas.
O tempo, principalmente, o tempo, o do relógio é que não dá tréguas mesmo. Na sua construção do passado, da história, da memória.
Da memória do que queríamos ter feito.
O livreiro livra-se, fecha a porta e vai bugiar.
Sines, 20 de Maio de 2010
Joaquim Gonçalves
Passam poucos minutos das três da tarde e já espreitou a Internet: As últimas da ópera bufa dos impostos; da Feira do Livro de Lisboa que, este ano, teima em não acabar; Da Feira do Livro do Porto que, este ano, arrecadou para si toda a polémica; espreitou, muito de mansinho, para ela não dar por isso, a conta no banco… Melhor dito: a “desconta”(!) do banco!
O livreiro não sai de trás do balcão e olha para “O último leitor” e “Santa Maria do Circo” que, numa das mesas em frente, o chamam. Lá perto, “O físico prodigioso” não consegue mezinhas para esticar o tempo. Tempo para ler o que é preciso. O que apetece.
Mais uma mirada à Internet, outra vez um saltinho aos blogues literários e salta a palavra “bibliodiversidade”. Sim, é o que oferecem as livrarias independentes. Mas independentes de quê? De quem? Se o livreiro fosse independente queria ser livro! Isso sim! Diria o que quisesse. Faria o que lhe desse na real gana… até que o queimassem… Ou guilhotinassem!
Mas o livreiro não é livro. É, apenas, livreiro. Aliás, talvez nem isso! Basta ir à Repartição de Finanças e procurar pela lista de profissões. Não há.
Na Argentina, chamou-nos para isso a atenção o blogue da revista Ler, foi fundada a primeira escola de livreiros do País. Na apresentação dizia o respectivo Secretário Estado da Cultura, Jorge Coscia: «La palabra "librero" adquirió un gran prestigio en la cultura argentina. Aparece en el paradigma primero como un hombre que ama y conoce los libros y está grabada a fuego en esta hermosa tradición de la actividad editorial».
Atrás do balcão o livreiro - português, de província, ainda por cima - dá uma espreitadela para lá da montra, para lá dos mosquitos – alguém mira os livros expostos enquanto dura um cigarro. O cigarro acaba-se e a beata vai para o chão. A senhora - é uma senhora - apaga-o com a ponta bicuda do sapato não vá incendiar as pedras da calçada. O livreiro baixa os braços do teclado e prepara-se para ir buscar a vassoura. Livreiro todo-o-terreno, como dizia a colega Lena ao queixar-se das limpezas, dos caixotes, das facturas, das prateleiras, de tanta coisa e da falta de tudo.
O calor não dá tréguas. Nada dá tréguas. Ninguém dá tréguas.
O tempo, principalmente, o tempo, o do relógio é que não dá tréguas mesmo. Na sua construção do passado, da história, da memória.
Da memória do que queríamos ter feito.
O livreiro livra-se, fecha a porta e vai bugiar.
Sines, 20 de Maio de 2010
Joaquim Gonçalves
livreiro de sines
As coisas devem estar no seu lugar. Publicar textos que têm a ver com a vida de livreiro, como profissional, no blogue destinado aos clientes não será a melhor das opções. Por isso, a criação deste blogue que, embora possa ser seguido por toda a gente, os seus textos não vão incomodar clientes cujo interesse são os livros e a Literatura.
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